“Caminhar… é como o corpo mede a si mesmo contra a Terra.”
(Rebecca Solnit, Wanderlust: A History of Walking)

Apesar da minha forte formação científica, desde que comecei a praticar Yoga que eu comecei a procurar por uma abordagem educacional mais integrada e holística, uma abordagem que não separasse o corpo da cabeça, o sentir do pensar, o homem da natureza, a Arte da Ciência. Eu achei o que procurava no Schumacher College, na Inglaterra. Foi lá que eu conheci a Caminhada ao Longo do Tempo (Deep Time Walk), um dos melhores recursos educacionais que já conheci, e que tenho usado desde que retornei ao Brasil em 2014.

A Caminhada ao Longo do Tempo é uma ferramenta poderosa, que nos inspira a aprender conceitos científicos profundos através do simples ato de caminhar. Ao mesmo tempo, é uma metodologia que faz uso das Quatro Formas de Conhecimento, propostas por Jung: sensação, sentimento, intuição e pensamento. É uma prática de ensino que tem a contemplação como elemento-chave para apoiar a aprendizagem e a construção da consciência ecológica.

O que é a Caminhada ao Longo do Tempo (Deep Time Walk)?

walkA Caminhada ao Longo do Tempo, desenvolvida pelo ecologista Dr. Stepahn Harding, Coordenador do curso de Ciências Holísticas do Schumacher College, e seu aluno de mestrado, o brasileiro Sergio Maraschin, é uma “jornada” onde você caminha a idade da Terra em poucos quilômetros – aproximadamente 4,6 bilhões de anos em 4,6 km! Nessa caminhada, cada metro caminhado corresponde a 1 milhão de anos e, portanto, toda a história da humanidade, desde o Homo Sapiens até hoje, acontece nos últimos 20-30 cm! Durante esta caminhada, a qual é uma jornada através do tempo – o Tempo Profundo, o tempo geológico da Terra, nós descrevemos alguns dos momentos-chave da história do nosso planeta e como a vida evoluiu a partir de uma simples bactéria até todas as espécies que conhecemos hoje. É uma “contação de história” através do caminhar; é uma jornada de aprendizagem através do nosso corpo, mente e alma; é uma bela maneira de contar a história da Terra, a história da Vida, a nossa própria história. (Foto: Stephan e os últimos 30 cm da Caminhada ao Longo do Tempo: “A Caminhada ao Longo do Tempo possibilita que as pessoas conectem sua própria experiência do curto tempo que temos na Terra com a vasta extensão do tempo geológico.”)

Como somos capazes de perceber a vida na escala de tempo humana, o “tempo do relógio”, quando caminhamos 4.600 metros nós podemos compreender o significado de 4.600.000.000 anos, a idade de nosso lar, e colocar sua história, que é a nossa história, em perspectiva.

“O tempo profundo não é puramente uma abstração a ser calculada, mas uma experiência fenomenal  a ser encontrada no campo.”
(Richad Irvine, Universidade de Cambridge, Reino Unido)

Uma experiência interdisciplinar

Esta atividade de Currículo Caminhante (“Walking Curriculum”) nos permite experimentar a Terra e o Tempo com novos olhos; torna fácil para todos entender a ideia de “reencarnação atômica” como apresentada no primeiro capítulo da série Cosmos – A Spacetime Odyssey (o documentário científica de 2014 que continuou a história do famoso Cosmos, originalmente apresentado por Carl Segan em 1980), e perceber que “nós somos a própria Natureza, nós somos a Terra” mesmo que não saibamos muita Química ou os principais ciclos que acontecem na vida.

Em termos de currículo acadêmico, podemos facilmente ver a Caminhada ao Longo do Tempo como uma atividade interdisciplinar que nos permite ir tão profundo quanto quisermos em diferentes áreas: podemos usá-la para desvendar muitos aspectos da evolução da vida. Por exemplo, nós ensinamos que a vida é muito mais dependente da colaboração do que da competição e que a diversidade é um aspecto essencial da vida, ou que diferentes espécies Homo existiram todas juntas antes que Homo Sapiens se tornasse a única espécie a prosperar. Nós podemos destacar vários conceitos de Química, como o ciclo do Carbono, a fotossíntese, ou como conseguimos o oxigênio atmosférico em primeiro lugar. Ou nós podemos nos concentrar  em Geografia e falar sobre a formação geológica do solo no caminho que escolhermos fazer. Por causa da minha formação em Química, eu sempre gasto um pouco mais de tempo falando sobre pontos importantes e interessantes relacionados a esta disciplina, embora minha principal preocupação seja sempre chamar a atenção dos participantes para a beleza da própria vida e para os muitos significados do tempo.

A Caminhada ao Longo do Tempo nos dá a oportunidade de perceber o contraste entre o “tempo do relógio – o tempo da conveniência, o tempo da separação” e o “tempo profundo – o tempo da imaginação, da realização da unidade da vida”, como lindamente nos fala Satish Kumar, o fundador do Schumacher College, no vídeo abaixo:

SatishSatish Kumar, sobre o tempo profundo, o tempo eterno, e o tempo do relógio
(vídeo em inglês)

A Caminhada ao Longo do Tempo pode nos ajudar a regenerar nossa relação como o tempo e com a vida. Pode nos ajudar a entender que não há separação entre nós e a Natureza, que na verdade a Terra é nossa própria carne, nosso corpo maior; pode nos ajudar a “identificarmos nossa história com a história de Terra,” como diz o escritor David Abram no vídeo abaixo:

David AbramDr. David Abram falando sobre a Caminhada ao Longo do Tempo (vídeo em inglês)

Ao mesmo tempo, ela nos ajuda a regenerar nossa conexão com o ensinar e aprender. Eu já fiz essa caminhada com muitos grupos diferentes: com crianças, adolescente e adultos – todos amam. Uma experiência muito interessante que tive foi com um grupo de professores de diferentes disciplinas: todos eles puderam relacionar a Caminhada com suas próprias disciplina e com o quão útil seria ter a chance de usá-la como uma atividade interdisciplinar. Numa outra vez eu tive um grupo de adolescentes, crianças, pais e professores. Os pais ficaram maravilhados ao verem suas crianças interagindo comigo, me ajudando a explicar todas as coisas que eles já tinham aprendido, e os professores ficaram orgulhosos ao verem que seus alunos sabiam o que eles tinham ensinado.

Uma das Caminhadas mais potentes aconteceu em 2015, quando tivemos uma grande seca aqui na região de São Paulo. Eu conduzi uma Caminhada ao Longo do Tempo ao redor de uma represa no seu nível mais baixo de água. Nós literalmente andamos num caminho que seria impossível caminhar em outro momento. Nós pisamos no solo rachado e pudemos ver piers abandonados. Nós pudemos ver e sentir com todo nosso corpo os efeitos da mudança climática, do desmatamento da Amazônia e o que chamamos de desenvolvimento.

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Caminhando onde antes havia água (Represa em Bragança Paulista,
durante o módulo de Ecologia Profunda do Certificado da Escola Schumacher Brasil)

Outra Caminhada ao Longo do Tempo muito poderosa ocorreu em junho passado no Rio de Janeiro. A Caminhada foi realizada em parceria com o Museu do Amanhã para celebrar a indicação do Cais do Valongo como Patrimônio Mundial da Humanidade, pela UNESCO. O Cais do Valongo foi o maior porto de chegada de escravos no Brasil, uma parte muito triste de nossa história. A ideia desta Caminhada era traçar um paralelo entre nos ancestralidade africana como humanidade e como brasileiros, e resgatar e honrar parte de nossa história, por mais triste que ela seja. Ter professores de História como parceiros foi um fator-chave para o sucesso dessas três caminhadas.

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Sítio Arqueológico Cais do Valongo,
declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO este ano.

E porque eu realmente acredito que Educação deva ser sobre a regeneração de relações, em momentos tão complexos quanto o que estamos vivendo, eu tenho certeza que a experiência como a Caminhada ao Longo do Tempo, uma experiência com corpo, mente e alma, pode nos ajudar a regenerar nossa capacidade de nos admirarmos com a Vida e com nossa Terra ao mesmo tempo que entendemos o lado belo da Ciência. A Caminhada ao Longo do Tempo nos oferece uma experiência que nos ajuda a compreender um pouco de nossa história, a perceber o milagre que é a Vida. Ela pode nos ajudar a avançar em direção a um mundo mais bonito.

Experimente com seus alunos

Se você quiser experimentar a Caminhada ao Longo do Tempo, aqui estão algumas dicas que podem ajudar:

  1. Existe um aplicativo chamado Deep Time Walk, um audiobook para smartphones desenvolvido para que mais pessoas pudessem experienciar essa caminhada por conta própria. Este aplicativo pode ajudar você a planejar sua caminhada de modo que você possa fazê-la com seus alunos. Faça a caminhada algumas vezes sozinho antes de facilitá-la com um grupo.
  2. Assista Cosmos – A Space Odyssey, principalmente o primeiro episódio, onde alguns dos momentos mais importantes são apresentados e o Calendário Cósmico, criado por Carl Sagan, e sua relação com a Caminhada ao Longo do Tempo é explicada.
  3. Até que você tenha caminhado aproximadamente 4 km, faça paradas a cada 500 metros para destacar apenas os momentos-chave de nossa história. A partir daí, durante os 600 m finais você terá que parar a cada 100 m ou menos. Tenha sempre uma fita métrica com você. Antes de começar a caminhar mostre para o grupo o tamanho de 1 m (lembre-se que nesta caminhada 1 m = 1 milhão de anos). Nos últimos 30 cm mostre novamente e observe que tudo o que você aprende na escola sobre nossa história acontece nos últimos poucos milímetros!
  4. Tente introduzir alguma atividade corporal, como alongamento, antes da caminhada para preparar o corpo para o exercício. Durante a caminhada você pode parar e fazer um relaxamento ou um exercício de presença e atenção plena (mindfulness). Isto pode ajudar os participantes a terem uma experiência mais profunda. Convide-os a caminhar em silêncio tanto quanto possível, assim eles podem meditar sobre o significado de cada passo dado corresponder a quase meio milhão de anos.
  5. Você pode fazer a caminhada em qualquer lugar. Quanto mais natureza melhor, claro, mas eu já fiz várias no centro de São Paulo e do Rio de Janeiro e elas funcionaram. Quando for o caso, tente chamar a atenção dos participantes para qualquer elemento de natureza que possa estar presente, como árvores e flores, assim como para as coisas belas feitas pelo homem, como por exemplo, arquitetura. Chame a atenção para nossa capacidade de produzir feiura e beleza… Qual delas no leva para um futuro desejável?
  6. Quais são os sons que podemos ouvir? Quais as coisas que te chamam a atenção? Você consegue imaginar a cor do céu antes de haver oxigênio na atmosfera? Estas são só algumas questões que você pode usar com o grupo. Depois que você escolher o local para caminhar, muitas outras surgirão.
  7. Quando fizer a caminhada com crianças, convide-os a te ajudar a contar esta história: eles irão amar contar tudo o que eles sabem sobre bactérias, fungos e dinossauros!
  8. Chame a atenção do grupo para o fato de que a Vida é um processo cognitivo e complexo, o qual é baseado na diversidade e cooperação ao invés de monocultura e competição, como nossa cultura ocidental gosta de promover.
  9. E se você quiser mais dicas, me escreva no denicuri@gmail.com. Eu ficarei feliz em ajudar.

Boa sorte!

Texto publicado originalmente em inglês no site: ImaginED – Education that inspires learners from all ages

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