Em 2016 entrei para o time do Jogo da Política como consultora pedagógica. Um projeto incrível que veio ao meu encontro, logo após ter participado da oficina O Ser Político, organizada pelo Instituto Fonte. Nessa oficina me percebi atuando nesse campo através da educação, já que educação e política andam de mãos dadas e é impossível falar de um sem falar do outro. E falo de política aqui no seu sentido maior, o do fazer cotidiano, que se pauta pelas relações e conversações; falo da política que se pauta no “poder com” (ROMBAUER 2016, PG. 13), a capacidade básica que as pessoas têm de agir juntas pelo bem comum, e não no “poder sobre”, tradicionalmente associado à política institucionalizada, especialmente em momentos de crise como o que vivemos.

Na minha percepção de mundo, apenas compreendendo o sistema no qual queremos intervir, sendo capazes de perceber a sua complexidade e boa parte de suas inter-relações, onde e como podemos atuar é que podemos, de fato, fazer críticas pertinentes e consistentes; é que podemos começar um diálogo profundo que provoque mudanças; é que podemos começar a atuar como cidadãos conscientes dos nossos direitos e deveres. E para mim, isso é Educação, isso é Educação Transformadora, isso é Educação Inovadora! E como trabalhar com esse tipo de educação é o meu propósito, esse encontro foi um grande presente que 2016 me trouxe!

Mas, o que é o Jogo da Política?

É um jogo, no estilo RPG, em que os participantes participam e compreendem como funcionam os nossos três poderes: o Poder Legislativo, o Poder Executivo e o Poder Judiciário. O jogo foi criado pelo Pedro Markun, numa parceria do LabHacker, da Énois – Inteligência Jovem e O Sonho Brasileiro da Política. Mas, melhor do que eu falar sobre ele é assistir a esse vídeo onde eles falam do jogo que criaram: O Jogo da Política – Construção.

 

jp-1O Jogo da Política – Construção

 

Nesse, ano, além de diversas jogatinas em escolas, entre elas o Colégio Bandeirantes, Madre Cabrini, Gracinha, EE Amélia Kerr e a ONG CTC Digital, tivemos jogatina no Instituto Alana e duas oficinas com professores.

jp-2
Jogo da Política – Poder Executivo no Colégio Bandeirantes

A formação de facilitadores, com foco nos professores, passou a ser uma das prioridades neste ano, o que para mim se constituiu num ganho imenso! O Jogo ajuda o professor a perceber e, portanto, a ensinar, relações complexas que fazem parte tanto do fazer político quanto do tomar decisões. Desloca o professor para o papel de mestre e aprendiz, porque quando se trata de questões complexas não é possível ser o único detentor do conhecimento. O Jogo colabora na formação do professor, pois introduz o pensamento sistêmico e complexo, ajuda-o a enxergar as inúmeras interconexões entre diferentes temas e problemas reais e do nosso dia a dia, além de trabalhar com diversas habilidades e competências. Trata de ética e de responsabilidade, não apenas dos nossos governantes e representantes, mas de nós, cidadãos que votamos, elegemos e, embora não saibamos, temos poder para mudar e criar o país que queremos!

jp-3
Oficina do Jogo da Política – Poder Legislativo com professores

O Jogo da Política se relaciona fortemente com os Quatro Pilares da Educação da UNESCO:

  1. Aprender a Conhecer – conhecer nosso sistema político, em especial os três poderes: como se organizam, suas responsabilidades, como se dividem nas esferas municipal, estadual e federal etc.
  2. Aprender a Fazer – aprender a fazer e alterar projetos de lei, a distribuir o orçamento da cidade, a escrever projetos para o Executivo, a levar esses projetos às esferas pertinentes etc.
  3. Aprender a Ser – a ser cidadão crítico, consciente, capaz de se relacionar com a complexidade e a agir a partir desta compreensão etc.
  4. Aprender a Conviver – aprender a pensar e executar projetos em grupo, a dialogar e lidar com as diferenças e diversidade de opiniões, crenças e desejos etc.

Ele conversa diretamente com todos os Eixos Cognitivos do ENEM:

  1. Dominar linguagens (DL): os alunos precisam escrever e expor suas ideias e propostas, lidar com gráficos, tabelas, porcentagem etc.
  2. Compreender fenômenos (CF): especialmente trabalhado no Jogo do Judiciário, quando eles precisam lidar com provas, evidências, indícios etc.
  3. Enfrentar situações-problema (SP): no uso das evidências, no Jogo do Judiciário; nos projetos desenvolvidos nos Jogos do Executivo e Legislativo – na definição e compreensão do problema e na elaboração e apresentação de soluções, por exemplo.
  4. Construir argumentação (CA): em todos os Jogos a argumentação é uma habilidade fundamental: para acusar ou defender, para justificar as escolhas no orçamento, para justificar os projetos de lei criados ou alterados.
  5. Elaborar propostas (EP): na criação de projetos, tanto no Jogo do Legislativo quanto no Jogo do Executivo.

É um material intrinsicamente Inter- e Transdisciplinar, assim como a vida, assim como a política e assim como deve ser a educação do presente e do futuro, pois todos os problemas complexos que precisamos lidar também o são! O Jogo da Política oferece a possibilidade dos alunos, e professores, aprenderem a relacionar conteúdos e saberes específicos de cada área do conhecimento entre si, com problemas reais e com a vida, a meu ver um dos principais papéis da escola.

O Jogo da Política nos remete a Edgar Morin, pois possibilita trabalhar com alguns dos “sete saberes necessários à Educação do Futuro” que, como ele nos diz, são “entendidos como ensinos ausentes e necessários para a educação contemporânea” Morin & Díaz (MORIN 2014, p. 70):

  1. Ensinar sobre as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão.
  2. Ensinar a trabalhar com o conhecimento pertinente.
  3. Ensinar a aprender a trabalhar com as incertezas do conhecimentos.
  4. Ensinar a condição humana.
  5. Ensinar a identidade terrena.
  6. Ensinar a compreensão humana.
  7. Ensinar a ética do gênero.

Poderia escrever e explorar cada um desses saberes e sua relação com o Jogo; deixo isso para um post futuro. Lembro aqui outras duas citações do mesmo livro (MORIN 2014, p. 71):

“É preciso uma mudança educativa tal que nos habilite a conjugar uma concepção global do essencial e uma formação ética da responsabilidade.”

Do modo como vejo o Jogo da Política ele pode realizar contribuições importantíssimas para a Educação no nosso país:

à formação ética da responsabilidade e à formação política da democracia.”

Mas talvez o mais importante de tudo seja o fato de ver os olhos dos alunos brilhando ao jogarem o jogo! Ver alunos que geralmente pouco se interessam pelas aulas participando ativamente, fazendo perguntas e conexões profundas, percebendo o quão complexo é decidir, por exemplo, como distribuir o orçamento quando são tantos os problemas a serem resolvidos é extremamente compensador para qualquer educador.  Vê-los tomando consciência do quanto é difícil a tarefa de governar, legislar ou decidir sobre um veredito e, mesmo assim ver alguns saindo do jogo dizendo que um dia irão se candidatar nos dá esperança de que é sim possível mudar como compreendemos e interagimos com a política; nos dá esperança de que é, sim, possível mudar a política e nossa relação com ela e com quem se ocupa dela.

Em tempo… Siga a nossa página no Facebook para saber tudo o que está acontecendo: agenda das próximas formações de facilitadores, jogatinas em escolas, vídeos com depoimentos, links interessantes e, especialmente, o lançamento da versão final da caixa do Jogo prevista para logo mais!

MORIN, E. & DÍAZ, C.J.D. Reinventar a Educação – Abrir caminhos para a metamorfose da humanidade. São Paulo: Palas Athena, 2016.

ROMBAUER, E. O vazio no poder (the art of spaciousness) – Uma jornada reflexiva pelo fenômeno político. Dissertação apresentada à London Metropolitan University, 2015.

(texto originalmente publicado na ECO Rede Social dia 23/01/2017.)