Estamos vivendo um momento ímpar na nossa história, aonde o povo vai às ruas para protestar. Para quem nasceu no ano do golpe e cresceu sem nada saber e sem nada poder dizer é realmente um momento sem igual, como foi sair às ruas pelas Diretas Já.

No dia 15, mesmo tendo dúvidas sobre os reais motivos da manifestação, resolvi participar. Iria porque era um momento de poder expressar minhas ideias, minhas crenças e o que quero: reforma política, reforma do judiciário, reforma do nosso sistema educacional.

Queria um cartaz que refletisse o que acredito, o que aprendi praticando Yoga e meditação, o que aprendi no Schumacher, o que aprendi com Satish Kumar e com os muitos livros que tenho lido nos últimos anos, incluindo os de Thich Nhat Hanh. E durante uma conversa com uma amiga que no momento está no Schumacher College ela me deu a frase que dá título a este post e que era a base do meu cartaz, como você pode ver na foto acima.

Ao voltar da manifestação li um texto sensacional de Charles Eisenstein sobre a ganância (no link você encontra a versão do artigo em espanhol). Ganância e corrupção estão intrinsicamente ligados, e são ambos provenientes de visão de mundo que predomina e é base de nossa cultura ocidental: uma visão de mundo fragmentada, mecanicista e separatista, onde nós humanos somos separados da Natureza e que ela está aí para nos servir e fornecer os recursos sem os quais não vivemos. Dentro desse paradigma, se a Natureza é apenas fonte de recurso, a escassez é premissa básica e é por isso que vivemos com medo, o qual não nos permite amar e nos torna gananciosos, violentos, preconceituosos.

Se formos capazes de olhar o mundo com novos olhos, olhos que enxergam a complexidade da teia da vida, que enxergam o quanto estamos todos conectados uns aos outros e a tudo o que nos cercam, poderemos fazer a transição do paradigma da escassez para o da abundância, onde podemos trocar o medo pela confiança, o ódio pelo amor e a violência pela gentileza e generosidade.

Talvez eu seja uma sonhadora! Ouvi isso inúmeras vezes em minha vida de amigos e familiares, mas tudo o que a humanidade conquistou não nasceu de sonhos?

Eu realmente fico feliz de poder viver esse momento onde temos a liberdade de ir às ruas nos manifestar, mas como estamos fazendo isso? A manifestação de 15 de março foi pacífica, todos dizem, mas e a violência de inúmeros cartazes ofendendo a presidente? Os xingamentos a ela, ao Lula, ao partido, e a todos que por algum motivo não concordam com a manifestação? Será que temos todos que concordar e, ao não concordar, temos o direito de sermos agressivos?

O primeiro princípio ético que norteia a prática do Yoga é Ahimsá – Não violência. E não se resume apenas ao não matar ou agredir fisicamente. É não violência no pensar, no falar, no querer e no agir em relação a você mesmo e em relação ao outro e a todos os seres. A não violência em relação a nós mesmos é essencial para a realização da não violência em relação a todos os seres, humanos ou não.

Praticante de Yoga e adepta da ideia de que a beleza e o encantamento são fundamentais na mobilização de nossa vontade para mudar e para agir, me pergunto onde conseguiremos chegar a partir de tanta feiura e violência? Se quero mudar não posso agir como os que me agridem, como os que me roubam e me ferem a honra e a dignidade, não posso esquecer que se existe corrupção é porque temos o corrupto e o corruptor, como bem falou Ricardo Semler na entrevista que deu a Mário Sérgio Conti no programa Diálogos. Não posso esquecer que este não é um problema apenas de um partido ou de alguns políticos, mas sim um problema enraizado no DNA de nosso país, nossa cultura, de nossa política. E eu não consigo entender por que ser muito corrupto é tão diferente de ser pouco corrupto? Essa escala não faz o menor sentido para mim.

Precisamos sim nos manifestar e ir às ruas para ajudar a construir um país melhor, mas precisamos também refletir sobre como estamos fazendo isso. No programa Roda Viva de 23 de março, o líder do movimento Vem Pra Rua, Rogério Chequer, disse que “estamos aprendendo a ir pra rua, a pedir o que queremos”. Eu concordo com ele nesse ponto, mas exatamente por estarmos aprendendo precisamos também parar e refletir sobre o que chamamos de pacífico, o que chamamos de não violento.

Será que não podemos ir às ruas para pedir com clareza o que realmente queremos e precisamos, mas com beleza, amorosidade e gentileza? Pedir por mudanças profundas sem agredir aquele que não pensa como eu?